O corredor é infinito. O piso é ainda forrado por carpete cor de areia. Os enormes armários de carvalho, um de cada lado e de frente para o outro, soam imponentes. Quase atingem os céus. Um pouco mais a frente há ela, com seus cabelos cacheados cor de fogo. Aos poucos me aproximo com meus pés se arrastando, um diante do outro. “Como é linda”.
Na sua frente há um espelho. Agora são duas mães. A que esta do lado de cá sempre me conforta, me ama e me passa as mãos com carinho pelas costas. É serena, é tranqüila. Tem o choro fácil e o sorriso mais ainda. Estará sempre ao meu lado me afagando os cabelos também em brasa.
A que está do lado de lá é uma tirana. Faz-me sentir os episódios sempre mais incoerentes. Diz-me coisas em tom de ameaça e é perita em chantagem emocional. A rainha da retórica é que está do lado de lá. Tenho que negá-la para continuar me mantendo sã. Seus olhares de medusa ensurdecem meus ouvidos. O espelho é o paradoxo da mão que afaga e do tapa na cara.
Ela se pinta devagar, eu sento ao seu lado e a observo. Poderia ficar ali por dias, a vendo pintar os lábios de vermelho sangue, os olhos verdes de preto. Ela me olha de canto vez ou outra, mas não fala nada. Começa a ajeitar os cachos de brasa em um topete muito alto, que sempre achei exagerado e ostentoso.
Sua pele é muito branca. A pele de suas mãos é muito fina.
O ritual chega o fim. Eu como sempre dou meia volta sem fazer som algum. Coço os olhos para ter certeza de qual mãe estava deste ou daquele lado do espelho esquizofrênico.
-Mãe!Mamãe! – grito assustada- Caiu um cílio meu!Caiu!Olha...
Aproximo-me da deusa em chamas com a mãe estendida.
-Quando isso acontecer o que você deve fazer é colocá-lo junto ao peito e faça um pedido. -diz ela.
Pensativa olho para a minha mão estendida, olho para minha mãe e coloco o cílio abandonado em meu peito, pressionando-o.
-E vai acontecer?O que eu pedir vai acontecer?
Ela me fita com um jeito pacífico. Levanta uma bandeira branca. O seu eu desolado me responde:
-Não. Agente nunca casa com o amor da nossa vida.
Viro-me e vou andando na direção oposta a ela, como penso que fiz em quase toda a minha vida.
Atravesso o vale de carvalhos gigantes e o solo arenoso, onde é difícil não pisar em falso e não errar o passo.