domingo, 7 de fevereiro de 2010

o bafo abafado abominado pelo bolinado bem que te basta


Eu quero ser o corcel de veludo que dança sem graça no céu. Eu quero ser o sexo que entra na boca faminta de amor. Eu quero ser as mãos que deslizam sobre as notas e seus tons fora de tom. Quero sentir terra em minhas mãos. Quero ser também aquela segunda mulher que reflete no espelho. Quero ter quatro faces de luz. Serei eu quem vai te ganhar e a outra eu quem irá te matar.

Eu quero ser o calor do bafo abafado da noite de Março que dorme do lado de quem se arrepia com a sina de ser só.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

cabelo no ralo

Eu continuo aqui. Ouvindo o que eles enxergam de mais grave. Comendo o que eles ouvem de mais alto. Olhando o que eles comem de mais azedo.

Eu continuo aqui. Não tem mais ninguém lá. Mas eu ainda não fui embora. Há essa mão invisível gelada que pega no meu braço e me prende a essa cadeira quebrada que range todo o tempo.

Tem esses pés de chumbo que não obedecem a comando algum e me fazem de tonta quando fingem me levar a algum lugar.

São esses olhos que vêem malícia em cada gesto e me fuzilam só de pensar em respirar um pouco de ar limpo.

E todas essas caixas ao meu redor, lacradas e cheias de memórias que eu não quero mais. Memórias que se grudam como piche nas minhas pernas querendo subir, querendo subir.

E eu ainda estou aqui. Com todo esse entulho que eu já não quero mais. Mas não há solução, nada basta não querer. O entulho me adora. O entulho me quer. O entulho me ama.

Eu continuarei aqui.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Estupro Imaginário

No Congo, mulheres de 2 a 80 anos de idade são estupradas, torturadas e assassinadas todos os dias. As que sobrevivem e conseguem chegar até os hospitais, muitas vezes tem que passar por cirurgias reparatórias para a reconstrução da vagina. Essas mulheres perdem a bexiga, o útero e os ovários. Passam a sofrer de incontinência urinária para o resto de suas vidas. Seus maridos, se não são assassinados ou feitos de escravos, as deixam, com vergonha de estar ao lado de uma mulher que passou pelas mãos de outros homens. Alguns soldados, tanto do Congo, quanto de outros países estupram mulheres grávidas e quando o fazem, enfiam galhos ou armas nas vaginas dessas mulheres para matarem os bebes que estão no útero. Os soldados pegam com uma tigela o sangue que escorre do útero e fazem com que elas o bebam. Grande parte dessas mulheres, envergonhadas, humilhadas e sentindo- se culpadas, fogem para as florestas. Quando grávidas de algum soldado que as estuprou, dão a luz ali mesmo, no meio da selva. Abandonas e sem auxilio, como animais.

Cinqüenta anos depois do ápice do feminismo. Cinqüenta anos em que as interações entre sexos foram em partes restabelecidas com muito esforço e à cotoveladas.
Treze anos de guerra civil no Congo. Treze anos de guerra criada por homens. Treze anos em que são as mulheres quem sofrem.

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Recentemente, em uma Universidade de São Paulo, uma garota teve que deixar o estabelecimento, escoltado por policiais.
Crime: Usar mini-saia.
Geyse, a loura gorducha mais famosa da quinzena é personagem principal de um agravo contra mulheres. Se um bando de rapazes vaia ao ver um par de pernas expostas, ao invés de aplaudir e assobiar, então há algo errado. Se uma menina usa as mesmas roupas que se vê nas revistas e nas novelas e por isso é expulsa da faculdade, então há algo muito errado. O que eu entendo neste episodio é que existe um grande colapso coletivo no inconsciente da sociedade. Homens amedrontados e inseguros sentem-se ameaçados por que uma mulher domina o ambiente mostrando as coxas e bocado de confiança e segurança em si mesma.
O anti-feminismo está também entre as próprias mulheres, não se enganem. Não foram só os machos que jogaram as pedras na “Geni”. O que não se enxerga (ou não se quer enxergar) e que com o comodismo das novas gerações corremos um grande risco. O risco de esquecer que só temos hoje um lugar na sociedade graças aos esforços árduos e conquistas conseguidas a muito custo, das mulheres do passado. As jovens mulheres tendem a crer que já que nasceram com direitos legais e sociais, esses direitos são e sempre foram estabelecidos gratuitamente, legitimamente. Entretanto a autonomia e liberdade nos foram “dadas” com grandes limitações e responsabilidades maiores ainda.
A mídia nos bombardeia com “moldes da mulher pós-moderna”: excelente dona de casa, mãe meticulosa, profissional exemplar, amante e esposa impar. Não há como exercer todos esses papeis, muito menos desempenhá-los com perfeição. E essa realidade gera mulheres culpadas, e frustradas consigo mesmas. Talvez seja por isso que existam ainda mulheres extremamente machistas, que crêem ser apenas a sombra de seus homens. Realmente essa visão é mais cômoda. Se for você só a metade de algo, o complemento de alguém, então por tabela, não há muita responsabilidade a ser agregada à você. Dessa maneira limitante pode- se livrar de uma parte da culpa que todas nos carregamos desde momento em que arrancamos a cabeça de nossa primeira boneca.

O caso Geyse deve manter- se presente para que nos lembremos de que as mulheres estão sob um teto baixo de uma casa apertada cheia de culpa, limitações e enormes responsabilidades.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

aflição

Deixe de ser o que foi
Não tem o que já passou
O logo é o que nunca existiu
O passado não é ido
O ido está vivo

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

18h40, quinta-feira, matias aires

O lar é o asfalto esfumaçado.Nossos jardins, os viadutos sem fim.Os refúgios da cidade são os bueiros abiçais.Nossos esconderijos mais ordinários são aqueles em que todos nos encontram de cócoras.Nessa vila de gente louca os atrasados* são sempre aqueles que chegam na hora.Nossas plantas são aros de rodas.E nossos filhos andam descalços sobre folhas secas que nunca caíram do topo das árvores.Deus está encaixotado.Viramos todos entulhos.Estamos repletos de vontades alheias.Usamos chapéus furados.A noite vêm caindo devagar.Quieta.Já é escuro.
Os atrasados ainda não chegaram.



*qualquer semelhança é mera semelhança, meu bem.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Eis o Nó

Eis o nó. Há um nó no peito que míngua os batimentos. Há um nó no peito que confunde os pensamentos. Esse é o nó.

É um fruto torto, ou será um caroço?Deve ser uma semente que não germina. Um botão que não nasce. É uma árvore admirável que não perece. Uma constelação que não reluz. É um filho morto prisioneiro. A lamentação que não se tornou pranto. A lágrima que não queixei. O riso que nunca ri. Há toda a fome do mundo dentro de mim.

Uma coreografia viciada de lamúrias e anseios. Existe aqui no peito pressionado a tal respiração que falha. São todas as campainhas que não tocaram. Todos os vidros embaçados. Todos os íntimos anulados. Todos os sexos corrompidos. Todas as portas que já bateram.


É a “náusea”, e o “padam”.

Existe dentro de mim um nó estreito que brada.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

9 anos e 2 mães

O corredor é infinito. O piso é ainda forrado por carpete cor de areia. Os enormes armários de carvalho, um de cada lado e de frente para o outro, soam imponentes. Quase atingem os céus. Um pouco mais a frente há ela, com seus cabelos cacheados cor de fogo. Aos poucos me aproximo com meus pés se arrastando, um diante do outro. “Como é linda”.

Na sua frente há um espelho. Agora são duas mães. A que esta do lado de cá sempre me conforta, me ama e me passa as mãos com carinho pelas costas. É serena, é tranqüila. Tem o choro fácil e o sorriso mais ainda. Estará sempre ao meu lado me afagando os cabelos também em brasa.

A que está do lado de lá é uma tirana. Faz-me sentir os episódios sempre mais incoerentes. Diz-me coisas em tom de ameaça e é perita em chantagem emocional. A rainha da retórica é que está do lado de lá. Tenho que negá-la para continuar me mantendo sã. Seus olhares de medusa ensurdecem meus ouvidos. O espelho é o paradoxo da mão que afaga e do tapa na cara.
Ela se pinta devagar, eu sento ao seu lado e a observo. Poderia ficar ali por dias, a vendo pintar os lábios de vermelho sangue, os olhos verdes de preto. Ela me olha de canto vez ou outra, mas não fala nada. Começa a ajeitar os cachos de brasa em um topete muito alto, que sempre achei exagerado e ostentoso.

Sua pele é muito branca. A pele de suas mãos é muito fina.

O ritual chega o fim. Eu como sempre dou meia volta sem fazer som algum. Coço os olhos para ter certeza de qual mãe estava deste ou daquele lado do espelho esquizofrênico.

-Mãe!Mamãe! – grito assustada- Caiu um cílio meu!Caiu!Olha...
Aproximo-me da deusa em chamas com a mãe estendida.

-Quando isso acontecer o que você deve fazer é colocá-lo junto ao peito e faça um pedido. -diz ela.

Pensativa olho para a minha mão estendida, olho para minha mãe e coloco o cílio abandonado em meu peito, pressionando-o.

-E vai acontecer?O que eu pedir vai acontecer?

Ela me fita com um jeito pacífico. Levanta uma bandeira branca. O seu eu desolado me responde:
-Não. Agente nunca casa com o amor da nossa vida.

Viro-me e vou andando na direção oposta a ela, como penso que fiz em quase toda a minha vida.
Atravesso o vale de carvalhos gigantes e o solo arenoso, onde é difícil não pisar em falso e não errar o passo.